Diálogo – Revista de Ensino Religioso / Ano XI, n. 42 - Maio de 2006

Projeto Arteiros, espaço de arte inclusiva

Daniella Forchetti

Passar a vida procurando ser únicos e buscando nosso espaço no grupo. Vivemos essa dicotomia diariamente. Ser único implica em ser diferente e original. No entanto, a sociedade nos rotula pelos papéis que representamos a cada momento e delimita quais qualidades podem se destacadas e quais não. Quando dizemos incluídos, estamos falando das pessoas que se encontram dentro da curva do padrão estabelecido como normalidade. É bom nos lembrarmos que em algum momento nós, ou uma pessoa conhecida, necessitamos de alguma adaptação na rotina diária. Portanto, me incluo fazendo parte dessa diferença. A experiência que aqui relato retrata minha trajetória na área da Educação Especial.

A chave é a comunicação

A inclusão das pessoas com deficiência supõe que ultrapassemos as barreiras da comunicação. Não é suficiente adaptar espaços arquitetônicos, quando não compreendemos o que o outro nos diz. Para que isso ocorresse de forma prática em minha vida, há seis anos criei um grupo de dança. O Projeto Arteiros, como é conhecido, visa desenvolver a consciência corporal, a criatividade, a comunicação e a socialização, favorecendo o processo de autonomia de pessoas com múltiplas deficiências. Atualmente o projeto visa atender toda a comunidade e prioriza pessoas com deficiência e seus familiares, bem como pessoas de baixa renda.

Utilizei a Dança Moderna Educativa (Laban,1990), como base do trabalho e como forma de contribuir para a exploração do movimento e da descoberta de si e da existência do mundo. Na escola o uso dessa técnica é variado: possibilita a expressão e a consciência dos próprios movimentos, preserva o gesto espontâneo, ajuda a desenvolver o potencial criativo e cultiva a capacidade de fazer parte de danças coletivas.

Foram também introduzidas no trabalho as danças circulares sagradas, que contribuem para a socialização do indivíduo, já que retomam antigas formas de expressão de diferentes povos e culturas, acrescidas de ritmos, coreografias e criações atuais, buscando uma forma mais orgânica de expressar sentimentos.

Esses trabalhos ajudam a desenvolver os cinco sentidos através da estimulação: auditiva com instrumentos musicais e música; tátil com a vibração dos sons, pelo toque integrativo e por diferentes sensações térmicas; visual através da imagem corporal do outro e de si próprio no espelho e através de figuras, desenhos, fotos e objetos de referência; olfativa pelo reconhecimento do cheiro do outro e diferentes cheiros do meio ambiente; e gustativa, quando o participante ainda possui formas primitivas de explorar o mundo e se utiliza da boca para isso.

É importante que no início do trabalho o vínculo principal seja preservado, para que o toque não seja invasivo. Na medida que ele vai se desenvolvendo é possível por a pessoa em relação com outros professores e voluntários. Os alunos que adquirem maior independência tornam-se ajudantes na aula.

Na diversidade de deficiências, a unidade de comunicação

A comunicação entre os alunos é ampliada e reconhecida de várias formas, já que existem participantes surdo-cegos, cegos, surdos, paralíticos cerebrais, autistas, cadeirantes, e outros. Na diversidade de deficiências é possível haver uma unidade de comunicação. A liga para isso é o respeito e a cooperação. Esse trabalho é inspirado no projeto VIVE, Vivendo Valores na Educação/Brahma Kumaris.

A comunicação permeia continuamente o diálogo entre os participantes, favorecendo o uso de sistemas de comunicação alternativa ou suplementar e da Libras (Língua Brasileira de Sinais). Essas formas diferenciadas de comunicação fazem parte de nossa criação coreográfica e de nossas apresentações em grupo, sejam pelo uso dos sinais, de objetos referências ou das figuras do PCS ou COMPIC (figuras pictográficas e ideográficas).

As pessoas da comunidade que muitas vezes não tem contato com essa realidade ao assistir uma apresentação ou ao dançar com os participantes no grupo acabam experimentando como se dá o diálogo através dessas formas de comunicação alternativa e, superando pré-conceitos estabelecidos.

Com esse projeto de complementação escolar é possível observar o resgate da auto-estima e a possibilidade dos participantes se sentirem capazes não só de receber, mas também de compartilhar algo de si. Há uma nova valorização dos participantes por parte dos familiares, que descobrem neles o potencial antes ignorado. E são vivenciadas em grupo experiências que valorizam o diálogo e a socialização através da comunicação alternativa e suplementar junto à comunidade em geral.

O trabalho, antes de mais nada, visa resgatar a qualidade de vida dos participantes, desenvolvendo valores como respeito e cooperação, fundamentais para que haja um bom diálogo e compreensão entre as pessoas. É valorizado o potencial de cada um, possibilitando que o participante desenvolva-se de forma única, mesmo fazendo parte de um grupo. São respeitados o tempo e o momento de cada pessoa e supridas suas necessidades mais básicas para que possa desenvolver a comunicação expressiva.

Dançamos em parques, escolas e teatros, entrando em contato com diferentes pessoas, que muitas vezes nunca conheceram essas formas de comunicação alternativa. Levamos a mensagem: Igualdade de direitos, respeito pelas diferenças. Que possamos aprender com nossas diferenças e com nossas semelhanças.

Referências Bibliográficas

Dança Educativa Moderna, R. Laban, Editora Ícone, São Paulo, 1990

Danças Circulares Sagradas: uma proposta de Educação e Cura, R. Ramos, Editora

Triom, São Paulo, 2002